Uso de Fitogênicos na fase de crescimento e terminação como melhoradores de desempenho em Suínos | ASEMG

Uso de Fitogênicos na fase de crescimento e terminação como melhoradores de desempenho em Suínos

Publicado em 8 de outubro de 2020

1.Introdução

O uso de antibióticos promotores de crescimento tem sido proibido/reduzido em todo o mundo por conta do receio ao surgimento de cepas bacterianas resistentes e em virtude das exigências dos consumidores.

No Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem publicado normativas (IN nº1/nº45), proibindo o uso de aditivos melhoradores de desempenho que contenham os antimicrobianos Tilosina, Lincomicina, Tiamulina e Colistina, os quais são classificados como importantes na medicina humana. Segundo a OMS, em alguns países, aproximadamente 80% do uso total de medicamentos de importância na medicina humana, ocorre no setor animal, principalmente como promotor de crescimento, para tanto, a mesma recomenda a restrição completa ao uso de todas as classes de antimicrobianos de importância na medicina humana para uso como promotor de crescimento em animais de produção.  Com isso, surgiu a oportunidade para a busca de novos produtos, alternativos aos antibióticos, visando viabilidade, baixo custo e sustentabilidade a longo prazo na suinocultura.

2. Uso dos fitogênicos

Recentemente, tem havido um aumento nos esforços para o controle de certas patologias do aparelho digestivo com o uso aditivos fitogênicos (Draskovic et al., 2020). Neste cenário, encontram-se os óleos essenciais de plantas (OEs), que são líquidos aromáticos, voláteis e oleosos, extraídos de materiais vegetais como: sementes, flores, folhas, brotos, galhos, ervas, cascas, madeira, frutas e raízes (Brenes et al., 2010).

Vários estudos comprovam o uso dos OEs como alternativa aos antibióticos, pois eles apresentam propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, antioxidantes e coccidiostáticas (Tan et al., 2015). As infecções bacterianas entéricas em suínos têm importância crescente e são frequentemente observadas em diferentes faixas etárias, provocando um grande impacto para indústria de suínos em todo o mundo (Jacobson et al., 2005). Estas infecções são responsáveis por aproximadamente 30% das perdas econômicas na suinocultura (Burch, 2000). Dentre as maiores perdas, estão as relacionadas à sequelas no trato gastrintestinal (McOrist & Gebhart, 1999). Estas lesões podem ser permanentes ou transitórias, resultando em expressivo atraso no crescimento, na redução da eficiência alimentar e no custo com tratamentos e alimentação adicionais, respondendo por 60% dos gastos com antimicrobianos na suinocultura (Jacobson et al., 2005).

Desta forma, temos a real necessidade de implementarmos estas novas tecnologias já existentes, como os aditivos naturais, que são importantes ferramentas para atender às novas exigências do mercado e produzir animais mais saudáveis, ambientalmente sustentáveis e com uso consciente dos antimicrobianos.

3. Enterite Proliferativa e as perdas econômicas

Sabe-se que Lawsonia intracellularis causa enteropatia proliferativa (EP), uma das doenças suínas economicamente mais importantes com distribuição global (Draskovic et al., 2020), sendo que as perdas totais causadas pelo EP são estimadas em US$ 1 a US$ 5 por suíno afetado, mas provavelmente são maiores,  porque as estimativas são baseadas apenas em casos clínicos da doença e não envolvem doenças subclínicas (Vannucci et al., 2019). Em relação às perdas subclínicas, McOrist et al. (2006) cita perdas próximas a 3 € (euros) por animal, haja visto a perda de eficiência destes animais acometidos, podendo chegar a uma redução de 37% no GPD e piora em 27% na conversão alimentar.   Mauch et al. (2006) em seu trabalho, chegaram a uma estimativa de perda próxima a 100 euros por fêmeas reprodutoras do plantel.

4. Material e Métodos

O experimento foi conduzido em uma granja de recria e terminação do estado de Minas Gerais. A granja possuía histórico de problemas recorrentes com diarréia de sangue. Foram avaliados 04 lotes de crescimento e terminação, totalizando 7.296 animais. Os animais dos lotes tratados receberam Dysantic® nos intervalos entre os pulsos medicamentosos, conforme pode ser observado na tabela 1. Todos os animais receberam, durante todo o período do lote, água e ração à vontade, sendo utilizadas rações sob um programa nutricional com 4 fases (Tabela 1).

Tabela 1 – curva de consumo teste x controle.

Os animais foram alojados em baias de crescimento e terminação, na densidade de 1,0 m2/animal, dotadas de piso parcialmente ripado, bebedouro tipo nipple com altura regulável e comedouro tipo tulha com arraçoamento ad libitum. O controle de temperatura na unidade de instalação foi baseado no manejo de cortinas. Para análise comparativa dos indicadores zootécnicos, foram utilizados os dados de 04 lotes imediatamente anteriores à avaliação e para bloqueio de outros efeitos (sazonalidade, protocolos, status sanitário, etc) também foram utilizados dados de 04 lotes do mesmo período do ano anterior.

4. Resultados e discussões

Em relação aos pesos de entrada, quando analisamos T2 contra T3, temos similaridade nos pesos, porém estendendo a análise destes dois tratamentos em relação ao peso de saída, nota-se diferença estatística significativa no incremento do ganho de peso (Tabela 3), haja visto que os dias de propriedade de ambos os experimentos foram  iguais,  95,87 e 96,27 respectivamente. Os dados referentes a peso médio inicial, peso médio final e peso ajustado aos 150 dias estão demonstrados na Tabela 2.

Tabela 2. Indicadores de pesos médios iniciais e finais de acordo com os tratamentos experimentais.

Indicadores

Tratamentos

P-valor

C.V. (%)

 

T1

T2

T3

 

 

Peso Médio Inicial (Kg)

29,41a

24,49b

24,48b

0,001

5,35

Peso Médio Final (Kg)

100,12c

106,9b

114,7a

0,001

2,58

Peso Ajustado aos 150 dias (Kg)

89,95

91,3

91,2

0,8387

3,91

a,b Médias seguidas de letras distintas na linha indicam diferença pelo teste de T (P<0,05).

T1 – Controle negativo 2019 ; T2 – Controle negativo 2020; T3 – Dysantic® (1 kg/ton).

 

O ganho de peso diário dos animais tratados com Dysantic® (T3) foi 9% melhor em relação aos grupos controle, ou seja, houve um ganho de 79 gramas/animal/dia a mais, quando comparamos T3 contra T1 e um ganho de 77 gramas/animal/dia, quando comparamos contra T2 (Tabela 3).

Desta forma, utilizando a média de dias de propriedade dos lotes avaliados (91,57) temos um incremento em peso de 7,23 kg e 7,05kg, haja visto a melhoria no GPD. Extrapolando a conta para dias de propriedade, temos uma redução de 8,8 e 7,4 dias de propriedade a menos, quando comparamos T3 em relação aos grupos controles, desta forma estamos otimizando a relação lotes/ano e até mesmo ganhando tempo para um vazio sanitário adequado..

Tabela 3. Indicadores de ganhos de peso de acordo com os tratamentos experimentais.

Indicadores

Tratamentos

P-valor

C.V. (%)

 

T1

T2

T3

 

 

Ganho de Peso Médio diário (Kg)

0,858 b

0,86 b

0,937 a

0,048

4,48

Ganho de Peso na Fase (Kg)

70,7 c

82,4 b

90,2 a

0,001

2,92

 

 

 

 

 

 

a,b Médias seguidas de letras distintas na linha indicam diferença pelo teste de T (P<0,05).

T1 – Controle negativo 2019 ; T2 – Controle negativo 2020; T3 – Dysantic® (1 kg/ton).

 

Em relação aos resultados de conversão alimentar, os mesmos podem ser visualizados na Tabela 4. Em relação aos ganhos em conversão alimentar na fase, tivemos expressivos ganhos em eficiência alimentar sendo T3 melhor em relação aos grupos controle na faixa de 2% e 3%, respectivamente. 

Estes dados de melhoria corroboram com os dados encontrados por Draskovic et al.(2018), onde os animais que utilizaram fitogênico para o controle de EP tiveram uma taxa de conversão alimentar significativamente melhor em relação ao grupo controle.

Extrapolando os ganhos em conversão alimentar ajustada apresentados por T3 para as realidades médias dos lotes T1 e T2, estamos falando em uma economia de  aproximadamente 14 kg  e 13 kg de ração por animal na fase, respectivamente. Com estes dados de ganhos aplicados a realidade da granja na qual foram realizados os testes, estamos falando de uma economia anual em torno de 600 toneladas, as quais, se usarmos um valor estimado de R$ 1.000,00 a tonelada, teremos uma economia anual próxima a R$ 600.000,00.

Tabela 4. Indicadores zootécnicos de acordo com os tratamentos experimentais.

Indicadores

Tratamentos

P-valor

C.V. (%)

 

T1

T2

T3

 

 

Conversão Alimentar Fase

2,527 b

2,555 b

2,475 a

0,007

5,25

Conversão Alimentar Ajustada

2,527 c

2,487 b

2,327 a

0,045

5,58

Mortalidade (%)

4,72 b

6,24 c

4,32 a

0,043

6,76

T1 – Controle T1 – Controle negativo 2019; T2 – Controle negativo 2020; T3 – Dysantic® (1 kg/ton).

 

Em relação ao porcentual de mortalidade, tivemos uma melhoria de 0,4% em relação aos lotes de mesmo período do ano anterior e uma melhoria de 1,92% em relação aos  últimos 4 lotes do mesmo ano. Em relação a T2, observou-se uma grande redução nas causas de mortalidade relativas a diarreias de sangue. Em números físicos, aplicando os respectivos percentuais de melhoria na mortalidade obtidos com os lotes tratados com Dysantic® em relação ao total de animais avaliados dos controles, temos 26 animais e 123 animais mortos a menos, nos respectivos tratamentos. Se simplesmente multiplicarmos o total de animais que teríamos a menos em mortalidade por um valor médio de aquisição de leitão de saída de creche e isso, sem considerar nenhuma outra despesa a mais, estamos falando de uma economia de aproximadamente R$ 22.000,00.

 

Usando a literatura, outros trabalhos utilizando fitogênicos a base de Timol e Carvacrol para o controle de EP, apresentam resultados interessantes, tais como a redução da excreção fecal de L. intracellularis e também menor expressão do antígeno de L. intracellularis no ensaio IHC, o que implica na diminuição da quantidade de patógenos no íleo (Draskovic et al., 2018). Além disso, os resultados de Draskovic et al. (2020) indicam que a suplementação de aditivos fitogênicos na alimentação animal contendo uma mistura de diferentes extratos vegetais e óleos essenciais podem melhorar a histomorfometria do íleo e, consequentemente, melhorar a absorção, crescimento e desempenho dos suínos.

 

5. Conclusões

Os resultados obtidos neste trabalho indicam que o aditivo fitogênico pode ser benéfico no controle da EP e apresenta dados consistentes em melhorias zootécnicas e, consequentemente, expressivos ganhos econômicos. Os resultados encontrados neste trabalho estão em linha com os resultados obtidos por outros autores (Papatsiros et al., 2009 ; Draskovic et al., 2018 ; Draskovic et al., 2020) que sugerem que os aditivos fitogênicos podem ser uma solução alternativa sólida para o controle da infecção bacteriana em suínos causada por L. Intracellularis e são uma alternativa promissora aos antimicrobianos promotores de crescimento utilizados na suinocultura.

6. Referências

Draskovic V, Bosnjak-Neumuller J, Vasiljevic M, Petrujkic B, Aleksic N, Kukolj V, Stanimirovic Z: Influence of phytogenic feed additive on Lawsonia intracellularis infection in pigs. Prev Vet Med, 151:46-51. 2018.

Drašković, V.; Stanimirović, Z.; Glišić, M. et al. Effects of a phytogenic additive on the histomorphometric characteristics of the intestines in weaned pigs with a subclinical natural infection with lawsonia intracellularis. Acta veterinaria-beograd, 70 (1), 81-91.2020.

McOrist S: Defining the full costs of endemic porcine proliferative enteropathy. Vet J 2005, 1:8 9.

McOrist S, Gebhart CJ, Bosworth BT: Evaluation of porcine ileum models of enterocyte infection by Lawsonia intracellularis. Can J Vet Res 2006, 70:155-159.

Vannucci FA, Gebhart CJ, McOrist S: Proliferative Enteropathy. Diseases of Swine. 2019, 898-911.

Papatsiros VG, Tzika ED, Papaioannou DS, Kyriakis SC, Tassis PD, Kyriakis CS: Effect of Origanum vulgaris and Allium sativum extracts for the control of proliferative enteropathy. 2009.

Ficha técnica:

 

Formulário para produção e acompanhamento de Informativos técnicos – Vetanco

Tema: Informativo Técnico

Responsável pelo preenchimento: Eduardo Miotto Ternus

Data: 24/06/2020

Aprovação Departamento técnico: Fabrizio Matté

Data:25/06/2020

Aprovação Assuntos regulatórios: Thalita Malta (com observações

Data:29/06/2020

Aprovação Departamento de Planejamento:  Daiane

Data: 01/07/2020

 

 

 

 

 

 

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